São Paulo, 23 de Agosto de 2019

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Empresários, abaixo a Síndrome de Vira-Lata!!!

Em 1950, por ocasião da derrota sofrida pelo Brasil para a Seleção Uruguaia no final da Copa do Mundo, o jornalista e escritor Nelson Rodrigues, ao ver seus compatriotas afligidos por um senso de inferioridade, escreveu, no ápice de sua genialidade, o Complexo de Vira-lata – numa alusão à inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Apesar de metafórico, este termo pode até ser considerado muito pesado, mas antes de abordá-lo, constatei, em pesquisas que realizei, que existem milhares de menções sobre o mesmo, o que comprovadamente reforça a afirmação do célebre dramaturgo.

Vale esclarecer que não tenho formação em Sociologia ou em Antropologia, nem tampouco tenho competência para fazer um análise do comportamento da sociedade brasileira. Mas, sinceramente, me entristece identificar que ainda há, persistentemente, esse sentimento de inferioridade que assola a nossa pátria. Diante disto, eu não poderia deixar de assemelhar este complexo ao comportamento dos empresários que estão à frente das farmácias e drogarias, principalmente, de pequeno porte e que são a maioria em nosso país.

Creio que estes verdadeiros gestores de seus empreendimentos sentem-se degenerados, incapazes de competir com as grandes corporações do varejo. Ou seja, eles sofrem do Complexo de Vira-lata. No entanto, atribuo parte dessa síndrome a alguns palestrantes, fornecedores e até mesmo articulistas das publicações do segmento que, a meu ver, e ao que parece, sentem-se felizes ao contemplar e propagar o terror.

Certamente, todos nós já ouvimos algum palestrante categoricamente dizer: “É a Rede Walgreens que vai se estabelecer no Brasil e, com isso, vocês irão conhecer o que é concorrência”. Há outros que afirmam: “Um banco já anunciou que vai montar mais de 1.000 farmácias no país”. Sem mencionar as inúmeras vezes que ouvimos falar sobre o excesso de farmácias existentes no Brasil e que, ao longo dos próximos anos, segundo difundem os especuladores de plantão, outras milhares de farmácias deverão fechar as portas.

Para ilustrar, vale comentar que em 1996 participei de um evento, em São Paulo, no qual também encontrava-se a então Ministra da Indústria, do Comércio e do Turismo Dorothea Werneck (Governo FHC), que proferia aos quatro cantos que o Brasil tinha muitas farmácias e que no novo modelo competitivo que estava se estabelecendo, cerca da metade fecharia as portas. Cabe ressaltar que, à época, existiam apenas 20.000 farmácias no país. Então, fico imaginando o que a economista diria da realidade atual, em que o Brasil soma mais de 62 mil farmácias e drogarias.

Outra menção interessante diz respeito à Nota Fiscal Eletrônica (NF-e). Quando fora implantada, em 2006, fui procurado por inúmeros órgãos de imprensa para falar sobre o assunto, mas invariavelmente os jornalistas intencionavam abordar não os benefícios desta nova forma de fiscalização, mas sim a sobrevivência das empresas de pequeno porte ante este sistema que surgira para acabar com a informalidade. E que, devido a isso, provocaria o fechamento de muitas empresas.

Pois bem, por mais que eu argumentasse e insistisse em dizer que a ótica não era esta, e que nós, representantes do pequeno varejo, não gerenciávamos nossos estabelecimentos à margem da informalidade e que, portanto, este não seria o motivo do fechamento das nossas farmácias, instantes depois tendenciosamente era noticiado exatamente o contrário. Ou seja, pouco importava o que eu dizia, o que o jornalista precisava era cumprir a pauta de seu editor. Contudo, reitero minha convicção de que não existe farmácia neste país que tenha falido por atuar informalmente. Já com relação ao empresariado, para que se entenda melhor este terror desmedido, a sistemática funciona da seguinte maneira:

Existe uma determinada cidade onde os concorrentes são todos nativos e, entre eles, sempre existe alguém que se destaca, por ser mais empreendedor e, por isso, é considerado o melhor. Pois bem, nessa localidade, os demais empresários o veem como o grande ‘bicho papão’ e, em muitos casos, afirmam que suas práticas comerciais são desleais, além de lhe faltar lisura no modelo concorrencial por ele adotado. Entretanto, como o mundo não é perfeito, certo dia uma grande rede resolve se estabelecer nessa cidade e passa a utilizar uma prática concorrencial muito mais agressiva que aquele empreendedor nativo; passam-se alguns meses e os inconformados empresários chegam à conclusão de que eles estavam errados. Na verdade, eles perceberam que as práticas adotadas pelo até então ‘bicho papão’ eram semelhantes às ações utilizadas pela nova concorrente.

Diante do exposto, fica evidente que o ‘Complexo de Vira-lata’ leva as pessoas a acreditarem que primeiro são inferiores ao concorrente local e, mais tarde, conseguem ver o quão estão erradas, pois notam claramente que não são inferiores ao nativo, mas sim ao concorrente que veio de fora.

Em suma: Precisamos entender que não somos inferiores a ninguém!  Se alguém pode algo, eu também posso; se alguém consegue vender com desconto, eu também consigo; se alguém está prosperando, eu também posso prosperar; se alguém faz é porque existe uma maneira de fazer, e se existe uma forma eu também poderei fazê-lo.

Abaixo ao Complexo de Vira-lata! Imagine se eu tivesse acreditado na ex-ministra, imagine se eu tivesse acreditado nas manchetes dos jornais, imagine se eu tivesse dado asas às especulações. Certamente, eu não estaria escrevendo esse artigo, até porque se eu tivesse desistido quando alguém falou que não era possível, eu já teria sucumbido.

Edison Tamascia é empresário do setor farmacêutico há 35 anos, presidente da Febrafar (Federação Brasileira das Redes Associativistas de Farmácias) e membro efetivo da Câmara Brasileira de Produtos Farmacêuticos (CBFARMA), da CNC (Confederação Nacional do Comércio).

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